Movimento impulsionado por FIDCs e crédito estruturado transforma companhias em protagonistas financeiros de suas próprias cadeias produtivas, reduzindo dependência dos grandes bancos e ampliando eficiência operacional
Com juros elevados, maior seletividade bancária e pressão por capital de giro, empresas brasileiras começam a assumir um novo papel no sistema financeiro: o de financiadoras do próprio ecossistema. O movimento, impulsionado pelo avanço do crédito estruturado e dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), marca uma mudança relevante no mercado corporativo brasileiro, onde indústrias, distribuidoras e grandes operações do middle market passam a estruturar operações próprias de crédito para financiar clientes e fornecedores.
Na prática, o modelo transforma empresas em operadores financeiros das próprias cadeias produtivas. A estratégia permite ampliar vendas, reduzir a dependência bancária, aumentar a previsibilidade de caixa e ganhar competitividade em um cenário econômico mais restritivo. O avanço dessa dinâmica acompanha a expansão acelerada do crédito privado no Brasil. O estoque desse mercado já ultrapassa R$3 trilhões no país, impulsionado principalmente por instrumentos como debêntures, CRIs, CRAs e FIDCs.
Os FIDCs, em especial, vêm assumindo protagonismo nessa transformação. Dados recentes apontam que o patrimônio da indústria se aproxima de R$800 bilhões, com expectativa de atingir R$1 trilhão ainda em 2026. Segundo Thiago Eik, fundador da fintech Bankme, o crescimento desse modelo representa uma mudança estrutural no acesso ao crédito corporativo no Brasil.
“Durante décadas, as empresas dependiam exclusivamente dos bancos tradicionais para financiar crescimento, capital de giro e expansão comercial. Agora, começamos a ver um movimento diferente: empresas estruturando suas próprias operações financeiras para atender a cadeia de fornecedores, distribuidores e clientes. Isso descentraliza o crédito e cria uma nova lógica de eficiência econômica”, afirma.
De acordo com o executivo, o modelo se fortalece principalmente em setores com alto volume de recorrência financeira e relacionamento constante com parceiros comerciais, como indústria, logística, agronegócio e distribuição. “O banco tradicional trabalha com uma visão padronizada de risco. Já a indústria conhece profundamente o comportamento da sua cadeia, entende sazonalidade, histórico de pagamento e potencial de crescimento dos parceiros. Isso cria capacidade de concessão de crédito muito mais inteligente e estratégica”, diz.
A movimentação ocorre em um contexto de juros ainda elevados no Brasil. Com a Selic em 14,5%, empresas passaram a buscar alternativas para reduzir a dependência de linhas tradicionais de crédito e aumentar a autonomia financeira. Além do ganho operacional, o modelo também cria novas fontes de receita para as companhias. Ao estruturar operações próprias de crédito, empresas conseguem capturar margens que antes ficavam concentradas nas instituições financeiras tradicionais.
“O crédito deixa de ser apenas um custo operacional e passa a ser uma ferramenta de crescimento e fidelização comercial. Quem controla o fluxo financeiro da cadeia ganha eficiência, previsibilidade e poder de expansão”, explica Eik.
O avanço dos FIDCs também reforça a consolidação da desintermediação financeira no país. No primeiro trimestre de 2026, os fundos lideraram o mercado de dívida corporativa, com R$29,7 bilhões em emissões e crescimento de 38% em relação ao mesmo período do ano anterior.Para Thiago Eik, o movimento indica que o futuro do crédito brasileiro será cada vez menos concentrado.
“O sistema financeiro caminha para um modelo mais distribuído, especializado e conectado à economia. As empresas não querem mais apenas tomar crédito. Elas querem participar da construção da própria infraestrutura financeira”, conclui.
Sobre a Bankme
A Bankme é uma fintech que apoia médias empresas na superação dos desafios de crédito e gestão de caixa. Por meio da estruturação de soluções ágeis - viabilizados a partir da criação de securitizadoras, as empresas podem antecipar recebíveis, alongar prazos e rentabilizar capital ocioso com maior autonomia, utilizando recursos dos próprios sócios ou de investidores. Em poucos dias, essas organizações passam a operar com maior eficiência financeira, reduzindo custos e criando novas fontes de receita. Atualmente, a Bankme conta com mais de 200 soluções ativas e possui em seu quadro de investidores a DOMO VC, Apex Partners e Bamboo.

