Opinião: Liderar é também ter coragem para mudar

 
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Há uma ideia curiosamente conservadora no debate educacional brasileiro: diante de resultados insatisfatórios, experimentar pode ser perigoso; continuar fazendo o mesmo, aparentemente, não.

Talvez devêssemos inverter essa lógica. O Brasil convive há décadas com dificuldades persistentes de aprendizagem. Preservar o que funciona é obrigação. Mas políticas públicas também precisam ter coragem para experimentar, medir, comparar, corrigir e, se necessário, recuar.

O Paraná oferece hoje um caso interessante para essa discussão. Em 2025, alcançou os melhores resultados de sua série histórica no Ideb e ficou em primeiro lugar entre os estados brasileiros nas quatro áreas avaliadas pelo PISA: Ciências, Leitura, Matemática e resolução de problemas com ferramentas computacionais.

A vantagem sobre a média brasileira é expressiva. Em Ciências, foram 461,6 pontos contra 408,5 do País. Em Leitura, 458 contra 408. Na nova avaliação de resolução computacional, a diferença chegou a 61,9 pontos: 467,4 contra 405,5. Na mesma escala internacional, as médias paranaenses ficaram acima das registradas pelos países latino-americanos participantes nas quatro áreas. Em Leitura, os 458 pontos ficaram apenas três abaixo da média da OCDE.

Isso não significa que os desafios estejam resolvidos. Em Matemática, por exemplo, mesmo bem acima do índice nacional, o Paraná continua cerca de 40 pontos abaixo da média da OCDE. Isso significa algo ainda mais importante: mesmo ocupando uma posição de liderança nacional, a rede continua buscando maneiras de avançar.

Talvez essa seja a primeira lição. Liderar não deveria ser um convite à acomodação. Deveria aumentar a responsabilidade de melhorar. E melhorar exige olhar também para a forma como a escola funciona. Aprendizagem depende de boas práticas pedagógicas, mas também de condições para que elas aconteçam. É aí que a discussão sobre novos arranjos de gestão escolar ganha relevância. O debate, porém, costuma ser capturado por duas certezas. Para alguns, a participação de organizações privadas é, por definição, uma ameaça à escola pública. Para outros, mecanismos privados produzirão necessariamente eficiência.

As duas posições cometem o mesmo erro: decidem a resposta antes de ver os resultados. Uma escola não se torna melhor simplesmente porque sua gestão é pública. Tampouco porque parte de sua operação é privada. Ela melhora quando o aluno frequenta as aulas, o professor consegue ensinar, o diretor lidera pedagogicamente e o estudante aprende.

No Paraná, o Parceiro da Escola é uma dessas experiências. O programa começou com duas escolas-piloto em 2023 e hoje reúne 95 unidades. O Estado continua responsável pelo currículo, pelas diretrizes pedagógicas, pela avaliação e pela direção escolar; os parceiros assumem parte das atividades de gestão e de operação.

Ainda é cedo para conclusões definitivas. E esse ponto precisa ser dito com clareza.

Os primeiros levantamentos mostram sinais positivos. Entre as escolas participantes, houve avanço na frequência, redução de aulas vagas e melhora nos indicadores de aprendizagem. Nos anos finais do Ensino Fundamental, por exemplo, 87,3% das escolas parceiras aumentaram o Ideb, contra 76,4% das demais. Em Matemática, a proficiência cresceu, em média, 14,1 pontos nas unidades parceiras e 11,5 nas outras escolas.

Mas as escolas não foram distribuídas aleatoriamente entre os grupos. Portanto, esses dados não autorizam afirmar que o programa causou as diferenças. A cautela metodológica, porém, não significa ignorar os sinais.

Há números que antecedem qualquer prova e dizem muito sobre a qualidade da escola. Nas unidades participantes do programa em 2025, a frequência média passou de 84,99% para 87,83%, e 98,62% das aulas previstas foram efetivamente ministradas, praticamente zerando as aulas vagas.

Antes de aprender, o estudante precisa estar na escola. E, quando chega, precisa encontrar uma aula acontecendo.

Nada disso prova que o Paraná tenha encontrado um modelo para a escola pública brasileira. Precisamos de avaliações independentes, acompanhamento de custos, equidade, abandono e aprendizagem ao longo do tempo. Se os resultados não se sustentarem, o modelo deve ser corrigido ou abandonado.

Mas a recíproca também precisa valer. Se novas formas de gestão aumentarem a frequência, garantirem mais aulas, devolverem tempo pedagógico aos diretores e melhorarem a aprendizagem, deveríamos estar dispostos a reconhecer que há algo ali a ser compreendido.

Há uma assimetria curiosa nesse debate: cobramos das inovações provas para que possam existir, mas raramente cobramos dos modelos existentes provas de que continuam sendo a melhor alternativa. Experimentar não é improvisar. É justamente o contrário: definir previamente o que será medido, comparar resultados e estar disposto a interromper o que não funciona.
O principal ensinamento do Paraná talvez não seja um programa específico. É a disposição de experimentar mesmo quando os indicadores já são positivos.
Outros estados não precisam copiar o Paraná. Precisam testar soluções para seus próprios problemas, definir indicadores antes de começar, medir resultados, comparar custos e ter coragem tanto para ampliar o que funciona quanto para abandonar o que não funciona.

Guimarães Rosa escreveu que o que a vida quer da gente é coragem. Na educação brasileira, talvez coragem seja testar sem preconceito, avaliar sem complacência e seguir as evidências — inclusive quando elas contrariam nossas convicções. Porque, se o que transforma a educação é a aprendizagem, todo o resto deveria estar aberto à discussão.

 

Fred Melo, graduado em Direito pela PUC-Minas, especialista em Direito Público e Mestre em Administração, conselheiro em organizações do terceiro setor, CEO do Instituto Transforma Edu e diretor-executivo da APG.Gov.

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